Os ‘Papagaios de pirata’ do Rio

Papagaios de pirata colecionam gafes e risos em reportagens de TV

A repórter acaba de se pentear. Está prestes a entrar ao vivo com imagens do Theatro Municipal do Rio, onde é velado o corpo da cantora Elza Soares. Os termômetros da praça da Cinelândia beiram os 40°C na manhã de sexta-feira (21).

Assim que ela inicia a transmissão, três senhores se posicionam estáticos ao fundo da imagem, do outro lado da calçada. São eles Nil Ramos Soares, 77; Oseias da Conceição, 51; e Célio Barreto, 74.

O trio é conhecido como “papagaios de pirata” do jornalismo televisivo. O termo é uma alusão a anônimos que fazem de tudo para aparecer como figurantes em reportagens de TV.

Nos anos 1990, o grupo era um sexteto que, com o tempo, foi se desfazendo (alguns faleceram) e se mantém atualmente como um trio de papagaios inquietos.

O pernambucano Nil Ramos Soares é o mais antigo em atividade. Está na cidade há mais de 50 anos e, há 30, se dedica a “sobrevoar” os repórteres de rua.

Nil é tão conhecido dos cariocas, que sempre interrompe suas caminhadas para fazer selfie ou cumprimentar quem o identifica. “Entro no ônibus e me chamam, ando até a padaria e me apontam, vou ao mercado e a caixa diz que me conhece de algum lugar. Adoro a fama, gosto de ser notado, me faz bem”, diz ele, com os parceiros Oseias e Célio a tiracolo.

Apenas Célio não é chegado a entrevistas. Os amigos ainda assim o incentivam ele a falar: “Para de besteira! Essa reportagem é toda só pra gente! Vai ter até foto”, diz Nil, o mais animado. “Sou tímido pra falar, meu negócio é aparecer”, responde Célio.

Vida de figurante

A paixão de Nil pela notoriedade começou, curiosamente, quando visitou uma estação de rádio, ainda em Recife. Tinha 14 anos quando foi a um programa matinal contar piadas. Ao voltar para casa, os vizinhos lhe parabenizaram. “Vi que era legal ser famoso e investi na carreira”, diz. “Mudei pro Rio e tirei DRT [registro] de ator. Pago até sindicato dos artistas. Quer dizer, deixei de pagar há três anos, porque fiquei apertado.”

Um dia, parou ao lado de um político, de que não lembra o nome, dando entrevista na rua. Era o começo dos anos 1990. Gostou da repercussão. Desde então, procura câmeras pelas ruas. É cheio de histórias. Hoje aposentado, conta que dançou com Adele Fátima em 1988 nos palcos da TV Record num especial de Natal; foi mordomo do José Wilker em “O homem da capa preta”, filme de 1986; fez figuração em “Os Trapalhões no reino da fantasia”, de 1985. E aparecia vendendo pães numa birosca na primeira versão de “O Sítio do Pica-Pau Amarelo”.

Sebastião Soares não é conhecido de ninguém, como foi registrado. Nil é nome artístico. Mesmo com 1,50m de altura, não passa incólume pelas câmeras. Está sempre de chapéu de veludo preto. “É pra lembrar do Waldick Soriano, meu ídolo, o cantor de ‘Eu não sou cachorro, não’. Mas pode ser também uma homenagem a Paulo Gustavo, porque é bom falar dele. Virou até nome de rua!”, diz, lacônico. Sem filhos, mora sozinho em Niterói (RJ).

Valmir Moratelli – Colaboração para o TAB, do Rio 27/01/2022 04h01

Fonte: https://tab.uol.com.br/noticias/

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